O “número” que mais protege cérebro e longevidade
Quando olhamos estudos de coorte (milhares a milhões de pessoas acompanhadas por anos), aparece um padrão consistente: dormir em torno de 7 a 9 horas por noite se associa, em média, a melhores desfechos de saúde e menor mortalidade.
Esse achado costuma formar uma curva em U:
- Pouco sono (ex.: 4–6h) → maior risco
- Sono “ideal” (em torno de 7h; muitas análises usam 7h como referência) → menor risco
- Sono prolongado (9–11h) → risco volta a subir (frequentemente como marcador de comorbidades, fragilidade, depressão, etc.)
“Eu funciono bem com 5–6 horas”: o autoengano mais comum
No episódio AMA #2 com Peter Attia, Matthew Walker chama atenção para a raridade do fenótipo genético de “curto dormidor” (DEC2). Ele resume assim:
“You are more likely to get struck by lightning than to have this gene mutation.” Peter Attia
Ou seja: quase todo mundo que se define como “durmo pouco e fico ótimo” está, na prática, adaptado (e não “imune”). O cérebro pode “habituar” a sensação subjetiva, mas as métricas objetivas (atenção, tempo de reação, memória, humor) frequentemente ficam abaixo do ideal.
Qualidade do sono importa tanto quanto duração
Duas pessoas podem dormir 8 horas “no relógio” e acordar muito diferentes. O que muda é a arquitetura (estágios e continuidade):
- Sono profundo (N3): mais ligado a recuperação, consolidação de memória e redução de hiperexcitabilidade.
- REM: mais ligado a regulação emocional, resiliência ao estresse e integração de memórias.
Walker usa uma metáfora forte no The Drive para mostrar como o sono ruim “vaza” para todos os sistemas:
“Lack of sleep is like a broken water pipe… it will leak… into every nook and cranny of your physiology.” Peter Attia
Na prática clínica, sono fragmentado (microdespertares, álcool, calor, telas, apneia) reduz eficiência e “rouba” profundidade — e aí a pessoa jura que dormiu “o suficiente”, mas o corpo discorda.
O que a ciência mostra sobre sono e expectativa de vida
Uma fonte bem objetiva é a meta-análise dose-resposta de Shen, Wu & Zhang (Scientific Reports, 2016): usando 7 horas como referência, o risco relativo de mortalidade aumenta tanto com pouco sono quanto com sono prolongado. No artigo, eles reportam (vs 7h) RRs aproximados para 4–11h (por exemplo, 4h ~1,07; 8h ~1,07; 9h ~1,21; 10h ~1,37; 11h ~1,55). Nature+1
Esse tipo de dado não “diz quantos anos” você ganha ou perde (isso depende de idade, comorbidades, etc.), mas mostra uma correlação robusta entre duração do sono e desfechos de longevidade.
Como melhorar sono na vida real (sem perfeccionismo)
Regularidade > hacks
Horário consistente de acordar e dormir é um dos maiores estabilizadores do ritmo circadiano.
Luz: o “remédio” gratuito
Ambiente mais fresco costuma reduzir os despertares e favorecer sono contínuo.
Temperatura
Ambiente mais fresco costuma reduzir os despertares e favorecer sono contínuo.
Álcool
Pode até “dar sono”, mas costuma piorar a arquitetura e aumentar fragmentação.
Cafeína
A meia-vida pode atrapalhar a continuidade do sono mesmo quando você “não sente nada”.
Exercício físico
Ideal pela manhã ou tarde. Exercício muito intenso e tardio pode ser prejudicial ao sono.
Perguntas Frequentes
Quantas horas de sono devo dormir por noite?
Em média, 7–9 horas é a faixa mais associada a melhores desfechos em adultos. PubMed+1
Dormir mais de 9 horas é ruim?
Pode ser um marcador de outros fatores (doença, depressão, baixa atividade, apneia). Em estudos, sono muito prolongado se associa a maior mortalidade. Nature+1
Existe quem precise de só 5 horas?
Existe, mas é raríssimo. Como Walker resume, é mais provável “ser atingido por um raio” do que ter esse perfil genético. Peter Attia
Referências (bibliográficas e fonte de entrevista)
- Cappuccio FP et al. Sleep (2010). “Sleep duration and all-cause mortality: systematic review and meta-analysis…” PubMed+1
- Shen X, Wu Y, Zhang D. Scientific Reports (2016). “Nighttime sleep duration… risk of all-cause mortality…” (dose-resposta; curva em U). Nature+1
- Yin J et al. Journal of the American Heart Association (2017). Duração do sono e mortalidade/eventos cardiovasculares (associação em U). Revistas AHA
- The Peter Attia Drive / The Drive: Matthew Walker (Part III) + AMA #2 (show notes do site do Attia, com trechos citados). Peter Attia+1